Resenha: Desventuras em Série (2017)

Me ouça com atenção: não leia esse post. Posso lhe garantir que temos muitas outras coisas bonitas e alegres para se ver, mas nesse post em especial você só verá tristezas, tragédias e desventuras em série. Ouso lhe dizer, querido leitor, que a probabilidade de você sair triste daqui é grande. Talvez você nem sequer consiga esquecer as terríveis aventuras que viverá juntamente com os Baudelaire.

Vá ver algo feliz, algo que o deixe com o coração quentinho e confortável. Se caso decidir continuar está avisado de que só encontrará horrores. Muitos e muitos horrores.

Eu estava extremamente animado para o lançamento de Desventuras em Série, a nova produção da Netflix. Meu primeiro contato com o universo de Lemony Snicket foi com a adaptação para o cinema há algum tempo atrás. Eu gostei muito do filme e algum tempo depois descobri que este havia sido inspirado em uma série de livros. Ao ler os livros, percebi que o filme que eu havia gostado tanto não era exatamente fiel… mas agradeci muito por ter tido a oportunidade de ler os livros, que são simplesmente sensacionais. Neles foi possível que temas como infância, sombras, suspense, tristeza e morte fossem trabalhados de um jeito único, com humor sombrio e sagaz e muitos jogos de linguagem.

Sendo muito fã do autor dos livros, eu esperava uma adaptação maravilhosa ao mesmo tempo que temia essa adaptação. Eu só podia esperar que o melhor acontecesse. Não assisti sequer aos trailers, pois queria ser surpreendido e entrar com a cabeça aberta. Eu já tinha aceitado que a probabilidade de decepção era gigantesca. Mas respirei, preparei minha maratona e dei play.

A série conta a triste vida dos irmãos VioletKlaus Sunny Baudelaire, que passa de feliz e afortunada para uma série de horrores. Ao perder a casa e seus pais em um incêndio tremendo, os irmãos precisam encontrar um novo lar… ao mesmo tempo em que são perseguidos por um dos vilões mais astuciosos da ficção, o maligno Conde Olaf. Olaf quer botar as mãos na enorme fortuna herdada pelos Baudelaire e não medirá esforços para isso. Mas ele não contava que os Baudelaire fossem crianças tão espertas e talentosas.

Em primeiro lugar, eu fico muito feliz em dizer pra vocês que finalmente temos uma adaptação QUE NÃO FERRA COM OS LIVROS. A série é muito fiel! Vimos tantos livros bons cofcofpercycofcof serem estragados na tela… assistir a uma adaptação respeitosa é um verdadeiro alívio.  A primeira temporada da série tem 8 episódios. Cada livro recebe 2 episódios para que possa ser desenvolvido satisfatoriamente, ou seja, a primeira temporada adapta os quatro primeiros livros de Desventuras em Série.

Livros adaptados na primeira temporada

Outra coisa a ser comentada é justamente o apelo visual da série. É uma das coisas mais importantes para mim e eu esperava que a Netflix fizesse um bom trabalho no lado estético – como fizeram brilhantemente em Stranger Things. E o resultado ficou ainda melhor do que eu esperava! Os cenários são simplesmente lindos, chamativos e bem trabalhados. Os figurinos são um show à parte e complementam muito bem a sensação de atemporalidade que Desventuras em Série carrega: em um momento vemos elementos dos anos 60, em outros um jet ski.

A paleta de cores utilizada é belíssima, alternando entre tons coloridos e alegres para tons sombrios e frios. Tal variação de cores acompanha a vida dos Baudelaire: quando pensam que encontraram a felicidade, esta é rapidamente destruída. Desventuras em Série é um show para os olhos.

Os efeitos especiais estão na medida certa pra mim. Embora tenhamos alguns efeitos muito convincentes, a enorme maioria deles não tem esse objetivo; mas sim o de trazer para a série o aspecto caricato e surreal que propõe. Fiquei especialmente apaixonado pelas cenas que acontecem no meio do Lago Lacrimoso.

A atuação é obviamente um enorme destaque. O elenco atuou de modo muito fiel à como eu imagino os personagens. Consegui sentir muito do que senti lendo os livros. Os capangas de Olaf estão hilários (principalmente as velhinhas idosas), os tutores são muito engraçados e eu quis novamente esfregar a cara do Poe no asfalto 🙂 As intervenções de Lemony (interpretado aqui por Patrick Warbuton) como narrador são muito boas. Ele te encoraja a trocar de programa, já que você só irá presenciar horrores e isso certamente não lhe fará bem algum.

Mas os principais roubam a cena, como de costume. O elenco infantil é GENIAL. Os Baudelaire estão excelentes nos papéis. Violet é um gênio, determinada, esperta e responsável. Klaus é o típico bookworm, cativante, inteligente, cético e racional. Sunny é a Sunny. Eu queria saber o que iam fazer e  torcia pelo bem deles. Ficava orgulhoso da inteligência dos Baudelaire e odiei os adultos junto com eles.

E é lógico que Neil Patrick Harris arrasou no papel do Olaf. Neil conseguiu interpretar muito bem o vilão e sua personalidade conflitante. Ele consegue nos arrepiar para logo em seguida nos matar de risadas. As cenas em que Olaf assume os disfarces mais ridículos para conseguir botar as mãos nos Baudelaire ficaram muito boas também. Não consegue superar Jim Carrey – pra mim Jim foi a melhor coisa do filme antigo – mas consegue entregar um trabalho de qualidade que muito me lembrou o Conde Olaf dos livros.

“Eu acho que, se eu tiver alguma responsabilidade, é com os fãs dos livros, de ter certeza que apareço como eles imaginam o personagem.”

Neil Patrick Harris

Como grande amante de musicais, tenho que deixar clara minha aprovação pelas poucas músicas que cantaram. A abertura muda a cada 2 capítulos, os “look away, look away” grudaram na minha cabeça por horas. A trilha sonora é muito boa, combina bastante com a atmosfera da história.

Mas é claro que existem defeitos, nada é perfeito. O principal problema com a série consiste no fluxo da história. Algumas vezes a história apresenta alguns problemas de continuidade e fluência – como nos episódios 3 e 4. Mas logo em seguida isso é consertado, então não me incomodou taaaanto assim. Concordo bastante com a crítica do Adoro Cinema: talvez seja melhor assistir de 2 em 2 episódios.

É claro que a experiência varia de pessoa para pessoa. No meu caso a experiência foi muito positiva. Me surpreendi muito com a série e consegui aproveitar bem as horas que investi na maratona.

Espero que a qualidade seja mantida nas próximas 2 temporadas, com o roteiro um pouco melhor estruturado. Recomendo se você quer uma série divertida mas que mantenha um certo ar de suspense. Principalmente recomendo que você leia os livros, que são ainda melhores do que qualquer adaptação. Vou inclusive reler a série antes que a próxima temporada seja lançada (como irá adaptar mais 5 livros deverá ter 10 episódios).

Mas lembre-se: embora seja ótima para passar o tempo, não é de modo nenhum uma série feliz. É entretanto muito envolvente e divertida, feita para ser consumida aos poucos e com cautela. Mal posso esperar para continuar acompanhando as desventuras dos Baudelaire nas telas da Netflix. Esperamos que vocês também gostem 🙂

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